E agora, Drummond?

E agora, Drummond?

“A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, [..] [Carlos]? E agora, você ?” Começamos a procurar um Carlos nas entrelinhas dos livros e nos depoimentos das entrevistas, mas deveríamos ter suposto que encontraríamos vários!Que ótimo! O que torna nossa tentativa de entendimento das coisas e do mundo um emaranhado de possibilidades.
“E agora, [Carlos] ? E agora, você ? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama protesta, e agora,[ Carlos]?” Não é possível separar os Carlos, se cada um tem uma visão de mundo, se cada um é sem nome e se cada um zomba dos outros. Se escolhêssemos um para falar ficaríamos pensando: E os outros?E os Carlos que fazem versos, que amam e protestam? Seriam mais irreverentes, curiosos, perspicazes ou inquietos? Então, resolvemos falar de/com todos os Carlos de Drummond neste ensaio. É surpreendente e instigante existir essa possibilidade de encontrá-los no universo das poesias de todos os Josés da vida. Drummond deixa-nos “o poder de fugir do mundo” e isso é tudo e nada ao mesmo tempo! Temos infinitas possibilidades de escapar da desilusão, do fracasso, do medo, do abandono, do desamor, e até de nós mesmos – podemos ficar estáticos e indiferentes se quiséssemos, se isso fosse suficiente para se viver.

“Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar,cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio,o bonde não veio,o riso não veio,não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, [Carlos] ? Difícil não recorrer a Drummond, se ele escreveu dos diversos sentimentos de alguém que perdeu uma mulher ou um amor e de alguém que perdeu seu discurso e sua pena. Se estou amando, fico me perguntando: - “Que pode uma criatura senão, senão entre criaturas, amar?” Apenas uma simples frase basta para dizer tudo: - “Amar se aprende amando”; e, não precisamos nem ler o livro para “escapulir”, pegar no ar, como um sapo pega uma mosca no ar, essa verdade, como o sapo de Manuel Bandeira que “brada de um assomo, o sapo-tanoeiro: 'A grande arte é como Lavor de Joalheiro'. A grande arte é saber que “Não importa onde você parou...” para se levar a quietude aos corações lapidados e aflitos.

Ter a pretensão de tentar escrever sobre Drummond- tentar traduzir
em palavras seus sentimentos, supõe coragem e cuidado. O que será que poderíamos dizer a esse respeito? Esta dificílima viagem pressupõe a companhia do poeta, do eu retorcido; é com ele que as ideias vão se alinhavando, num embate de forças prazerosas, escrever sobre Drummond não é tão gratificante quanto escrever com Drummond! “E agora, [Carlos]? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro,seu terno de vidro,sua incoerência, seu ódio - e agora ?”
A viagem, para dentro dos Carlos, ou para dentro dos Josés que vivenciaram os sentimentos apontados por Carlos Drummond de Andrade é perigosa porque supõe o encontro de verdades, que a primeira vista não queremos enxergar: “Vou ficar frente a frente com aquilo que mais me dói no peito, a “Verdade dividida”. Quando a porta é arrebentada e se vê duas verdades – discute-se qual é a mais bela- é preciso optar por uma e cada um escolhe conforme seu capricho, sua miopia. Isto quando o Carlos encontra alguma porta. Esta escolha é a que o ser humano está condenado a ver e reconhecer em sua própria dor, a sua “pedra no meio do caminho”, no caminho do coração que conduz à vida. A pedra é o infortúnio, a casualidade, ou a própria pedra.
“Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. [ Carlos], e agora ?”Nas Minas imaginárias, o ser humano vai traçando os recomeços de sua trajetória. É preciso sempre “Recomeçar”, quando se tem uma chave na mão. Dar um novo sentido às alternativas encontradas diante das dificuldades é uma saída quando não se têm uma porta.Todo ser carrega dentro de si um pouco dessa linguagem drummondiana: a complacência pelo sofrimento do outro, a inquietação diante do desânimo, o amor desencontrado – representado pelo movimento da Quadrilha: João que amava Teresa, que amava fulano que não amava ninguém. São os movimentos constantes: “Não se mate” Carlos, sossegue, o amor é isso que você está vendo”. O amor e suas estranhas razões! “As sem-razões do amor”.

“Se você gritasse,se você gemesse,se você tocasse a valsa vienense,se você dormisse,se você cansasse,se você morresse…Mas você não morre,você é duro,[Carlos]!” É a partir do grito que estudamos possibilidades de refazermos nossa vida, e “a vida é passada a limpo”. “Que é ser? Que metro serve para medir-nos?” Se a felicidade cansasse, se ela morresse, ela se tornaria o fim almejado pelos Carlos. Buscas intermináveis! Todo o tempo estamos tentando deixar algo, construir algo ou fazer algo... tudo isso, genuínas verdades drummondianas, para não ser duro e para aprender a morrer. Não dá para escapar! Estamos todos de “Mãos dadas”, querendo as mesmas coisas. “As coisas foram acontecendo ao sabor da inspiração e do acaso.” Pensar assim é descrever o movimento da vida, ela simplesmente continua; até que outro dia, nosso peito sangre de dor, de desespero de medo e de morte.
A poesia humaniza as pessoas, exercendo assim sua dimensão universal e seu destino. Ter a consciências das coisas e das pessoas implica perceber que o dia de amanhã poderá ser difícil de suportar: não há coisa mais terrível, difícil e dolorida do que perder alguém a quem amamos ou alguém que está fora de nosso alcance: o amigo que seria imprescindível naquele momento tão sofrido; a palavra que faz falta e a decisão que precisa ser tomada a sós. “Mas como dói”! E a consciência das coisas faz-nos perceber que é preciso viver a vida com dignidade e esperança, com alegria! A poesia tem essa capacidade de suavizar as dores do mundo, de ser consolo dos amores: “A gente julga o valor das coisas pelo gosto que tem”.

Descobrir a poesia de Drummond é, sendo uma formiguinha, perceber a vida com a dimensão de um elefante! Já repararam nos elefantes, aquelas orelhas enormes e aquele “sorriso” esquisito? Criaturas gigantescas, difícil de não serem percebidas, que andam em bandos e protegem a cria carinhosamente. Terrivelmente questionador e intrigante é colocar um elefante em um poema. “O elefante” que procura amigos, pessoas de verdade, que riem, para uma palavra amiga, mais que isso um olhar verdadeiro, sincero, que não se encontra em qualquer pessoa, porque elas não se mostram. Um elefante! Quando ele pensa que será notado, ele volta cansado da procura e triste porque ninguém o reparou – assim como os seres humanos que em certos momentos cansam-se da procura, e desacreditam do amor, dos amigos. Brilhante ideia a do elefante! Faz-nos pensar na grandiosidade da nossa procura. É assim mesmo, sem tirar nem por, a vida segue com seus caprichos. “Inútil você resistir ou mesmo suicidar-se.”
- “Vai, Carlos! ser gauche na vida”. Ser imperfeito, ser irreverente, questionador, revelador das angústias, ser o avesso, incomum. Nem todos viram um elefante desenhado no chapéu do Pequeno Príncipe, do francês Antoine de Saint-Exupéry, mas nem por isso o elefante não existia! E quem criou o elefante? A imaginação de um infante.
Era necessário que alguém reparasse nas “fragilidades” do ser humano e as testemunhasse. Se alguém não nos observa, impõe argumentos, revira nossos sentimentos e nos põe frente a frente com nós mesmos; iríamos caminhando na vida, como para uma direção qualquer – o lugar comum a todos seria suficiente! Estaríamos condenados a sermos repetitivos no tempo presente – repetição de ideias, sentimetos, gestos, atitudes. Não! Mil vezes a ironia, a briga com a consciência, o choro e depois “Recomeçar” de alma lavada. Alegremo-nos com nossas inquietações – elas fazem reparar o colorido da vida, faz-nos querer repor nossas ideias no lugar incomum, buscar nosso equilíbrio interior, encontrar paz.
Perguntamos se estamos falando sobre Drummond ou sobre nós mesmos, todos esses sentimentos revirados e misturados lembram nossas vidas? Mas o que Drummond faz é testemunhar a si próprio e, assim, a nós mesmos, porque compartilhamos das mesmas sensações – aquilo que nunca falaríamos pra ninguém, o que escondemos no lugar secreto de nosso eu, o que nunca repararíamos em nossa personalidade. Ele apenas testemunhou, expôs, reviveu, revirou; e, não precisamos gritar aos quatro cantos, nem sussurrar pra ninguém, a intenção é concordar com nossa cabeça, reconhecer-se nas entrelinhas e mudar a opinião, o destino, o desamor, ter novas perspectivas. Ter a chave mágica para abrir a porta e ver a verdade, não dividida, mas inteira, luminosa.
A poesia é nosso esconderijo! Precisamos reagir. Alguma coisa precisa acontecer; é para isto que as palavras se destinam: nossa salvação. Perceber a nós mesmos, com “olhos inteligentes”.
Toda a forma de comunicação, a arte, filosofia, poesia; nos convida a uma reação diante dos fatos e das coisas da vida. Só assim devemos entender que viver a vida é o mais importante. Que às vezes a vida pára mesmo, como um automóvel: “Stop! A vida parou ou foi o automóvel”? E é preciso recomeçar a viver, não ficar estático, pálido, triste ou ausente de si mesmo.
A poesia de Carlos Drummond de Andrade modificou nossa vida, fez-nos reconhecer o amor indesejado, obrigou-nos a fazer escolhas – são terrivelmente necessárias –, criou-nos uma consciência política do mundo. Então, como desvendar Drummond? Olhar para si mesmo. “Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, [Carlos] ![Carlos], pra onde?”Termos a consciência de que aquilo que mais nos dói é a nossa incapacidade de sermos humanos, a falta de sentimento, a pequenez diante da tolerância, do afeto, a falta de amor – amor pela vida e pelo sentimento humano; pelo sentimento do mundo: “Fácil é desfrutar a vida a cada dia. Difícil é dar o verdadeiro valor a ela”. A crítica se joga como um tapa na cara: “Ah, você participa com palavras?”! Mas são os Carlos que vivem “indiferentes, ruins, traiçoeiros, devassos, perigosos” ? “Você marcha, [Carlos] ![Carlos], pra onde?”



Este texto foi feito por mim, para um concurso da Fundação Assis Chateaubriand...
Eliane.

Nenhum comentário:

Postar um comentário